quinta-feira, 5 de julho de 2018

Dos tantos que fui

Dos tantos que fui
Muitos perdi
Alguns eu não sei
Outros nem vi
Uns só lembrança
Outros pedaços
Retratos do tempo
Beijos e abraços
Memórias puídas
De tempos passados
Entradas saídas
perdas e achados
Já fui rua já fui terra
Já fui mar e explosão
Já fui lua já fui guerra
E também solidão
Se cresci não notei
Devo ter esquecido
Se morri eu não sei
Passou desapercebido
Fui traído e traí
Já prestei atenção
Já me abistraí
Já revelei já menti
Já fugi já voltei
Nunca me encontrei
Já corri contra o vento
Nadei em água fria
Já toquei instrumento
Estudei filosofia
Já cai machuquei
Levantei e chorei
Do que já acabou
Ainda estou no começo
Dos tantos que sou
muitos ainda nem conheço

db (julho/18)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

No tempo que eu sabia tudo

No tempo em que eu sabia tudo
havia uma floresta no quintal
Tinha monstros, animais ferozes
e inimigos de filme de cinema
Eu os vencia com uma espada
feita com galho de árvore
Era o tempo em que eu vencia tudo
Lá também havia um poço encantado
Nele tinha água clarinha e era tão
fundo que para alcança-la
a gente usava uma corda infinita
com um balde na ponta
Era o tempo em que eu podia tudo
Também havia uma eguinha
Muito negra e brilhante que
levava leite para todos na cidade
Ela puxava uma carroça que eu
guiava com maestria porque
era o tempo em que eu sabia tudo
Nesse tempo eu também podia tudo
E comia quantos torrões de açúcar quisesse
Rapadura, doce de coração, bala de côco
Comia até doer a barriga
Depois eu tomava água do poço
encantado e tudo fica bem
Era o tempo em que eu vencia e sabia tudo
Agora eu acredito que não saiba nada
E o sentido de vencer mudou
A pesar de ter passado muitos anos
eu ainda vivo lá com a égua Negrinha
e com o poço encantado no quintal
Mas a espada de galho de árvore
que eu usava para vencer os monstros
hoje eu transformei em poesia
db (junho/2018)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Eu preciso escrever sobre o vento

É preciso escrever sobre o vento
Apesar de tudo é o vento que importa
Dane-se o mar, a montanha, o tempo 
Lasque-se as agruras da vida torta
Os tropeços que o destino apresenta
Os problemas que batem à porta
É preciso escrever sobre o vento
Sobre os caminhos que ele percorre
As tristezas que ele alimenta
Os buracos onde ele morre
É preciso entender o peso do vento
E perceber a leveza do ar
Assim a qualquer momento
O vento pode te fazer voar.
db

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Insanos

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música
E foram condenados, levados a calabouços e tomaram choques elétricos
Queriam convence-los de que não havia música e que estavam em delírio
- Como vocês podem subverter a ordem estabelecida e
dançar assim felizes enquanto o mundo segue triste no silêncio?
E foram torturados e colocados no pau de arara e foram estuprados e humilhados
Mas continuavam ouvindo e não tinham o controle de seus corpos
Mesmo amarrados e machucados continuavam a mexer seus corpos no ritmo da música
E apanhavam mais e eram mais humilhados e tomam mais choques elétricos
Alguns ficaram surdos, foram lobotomizados e nunca mais dançaram
Se recolheram em um soturno mundo sem som e alegria
Outros, mesmo mutilados, nunca deixaram de ouvir
E continuaram dançando e rodando e em seus olhos havia um estranho brilho cheio de alegria
E continuaram sempre sendo julgados insanos pelos que não ouviam a música
Seguiram incomodando à todos os surdos do mundo e evitados pelos que tem medo de ouvir.
db
(com a colaboração de Nietzsche)

Idolatrando a dúvida

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Outono

Sem sol nem sombra
Sem sal e sem açucar
Nem doce nem amargo
As folhas caíram
Eu ainda nem falei delas
Nem o cheiro senti
Não fiquei descalço para pisar nelas
Não senti a umidade
Nem me emocionei para poder
Contar o cheiro que elas tem
Nem o dia de sol
Nem o friozinho do fim da tarde
Foram o suficientes
Para preencher o papel
Não falo o que é
Não sei do que se trata
Nem sei o que dizer
Só uma melancolia
ronda o peito
que se enche de vazio
Será que o outono é assim?
Será que eu sou assim no outono?
db

Grito mudo

O peso que
se carrega
nos ombros
nem sempre é maior
que a pressão
que aperta o peito
A voz que não
se ouve
Nem sempre é
tão surda
que não se perceba
O grito que não
se solta
nem sempre
é tão mudo
que não se
faça ouvir
db

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Vozes


Vestiu a camisa remendada
e a única calça que estava
dobrada dentro da caixa 
velha e amassada de papelão
Calçou os chinelos. Penteou
o cabelo com o pente de plástico
amarelo que estava no
bolso da calça olhando
para o espelho pendurado
na parede sem se reconhecer
Olhou os companheiros
ainda dormindo nas outras
camas do quarto
Pegou a carteira surrada,
conferiu os documentos,
respirou fundo e controlou
a lágrima do canto do olho
que teimava em escorrer
Imaginou o que diria na
despedida para os funcionários
do sanatório, treinou mentalmente
as palavras, com medo que
descobrissem que ainda
não era são e que aquelas
vozes, por hora sob controle,
ainda o perseguiam
Com medo de que percebessem
sua insegurança repetiu as palavras
com todo o cuidado
Seguiu em direção à porta que
já estava aberta, parou, olhou
mais uma vez para o quarto
como que num último adeus
Fechou a porta atrás de si e
seguiu para o grande portão
que dava para a rua
olhando para os muros
com pintura velha e frases
desconexas pixadas
Já no pátio, puxou de dentro do
saco plástico que levava seus
pertences um maço de cigarros
Pediu fogo ao guarda da saída que
lhe deu uma caixa de fósforos
Acendeu o cigarro puxando com
força a fumaça e a segurando
no peito longamente
O guarda olhando fixamente para
seus olhos lhe falou:
"Boa sorte, você não é mais louco"
Ele estremeceu.Tinha esquecido
as palavras tão incansavelmente
ensaiadas
Se afastou sem responder e após
alguns passos em direção à rua parou,
fechou os olhos e ouviu novamente
aquela voz
A mesma voz que por tantos
anos o tinha atormentado desta vez
o orientou na resposta
Virou vagarosamente para o guarda
e disse em voz alta:
"O homem que pensa não ser louco
vive em eterna ilusão"
Disse e seguiu seu caminho
Confuso, o guarda o acompanhou
com o olhar até que ele virasse
a primeira esquina, entrou novamente
e nunca mais esqueceu essa frase
db (abril/18)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sr. Smith

É domingo. Tarde de sol ardido na Paulista.
Muita gente e muito barulho, músicos, bandas
e DJs disputando o espaço físico e sonoro com
consequências danosas aos ouvidos de quem
tem que ficar no mesmo lugar das 5 da manhã
às 6 da tarde. Mas vale tudo pela arte
(Não, não é quase tudo. É tudo mesmo!)
A banca de poesia lá, estrategicamente montada
na sombra de uma grande árvore e eu ali,
distribuindo poesia para quem se dispõe a aceitar.
Entre uma música dançante dos anos 80 do DJ ao
Lado um blues do Cream de uma banda do outro
lado da rua e o som maneiro do Kaká Morais cantando
Nei Matogrossso mais a frente, chega o Sr Smith
em nossa banca. Um pequeno bag de instrumento
nas costas, talvez um violino ou um banjo, pela
roupa e estilo dificilmente seria um cavaquinho.
Usava uma jaqueta jeans com vários escudos
costurados, barba curta e um irresistível e pesado
sotaque americano.
Poesia se vende conversando, então apresentei
meu trabalho: Poesias grátis, poesia no azulejo,
brochuras com poesias, outras com prosa poética
de histórias da Paulista.
Foi logo falando que era americano e que estava
fugindo do Trump. Queria troca-lo pelo
Temer mas nenhum brasileiro aceitava!
Depois de olhar as peças perguntou:
- Por que as brasileiros não colam essas obras
na parede deles? Ficam colando pôster de Mick
Jagger, aquele cara feio!
Eu só sorri!
Olhou uma peça em azulejo chamada
“E Deus, que quem criou?”
Disse:
- Tem uma autor inglês, do qual não me lembrar
o nome - daqui cinco minutos, quando não fizer
diferença, eu lembra - que diz que o homem cria
os deuses quando precisa deles, depois, quando
não faz mais diferença ele os abandona. Então esses
deuses ficam vivendo numa mundo paralela,
nos assombrando. Acho que se criou deus tem
que usar!
Deu mais uma olhadinha para mim, sorriu e foi
embora.
Eu pensei comigo:
Nunca criei deus nenhum, não tenho nenhum
para usar e nem uso os que outros criaram.
Mas não tenho nenhum problema em dizer que se
você criou ou crê nos seus, pode usar sem pudor.
Obrigado Sr Smith, mas quem é mesmo esse autor inglês?
Fiquei curioso (se alguém souber me avisa).
db (21/03/2018)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Sobre religião e loucura

Imagine uma única pessoa,
na rua,
pregando a devoção à um velho boneco de plástico.
Ele anda entoando cânticos de adoração.
Faz reverências ao boneco, se curva diante dele e tenta convencer todos a fazer o mesmo. 
Jura que ele é o salvador e o único a ser seguido.
Levanta o boneco ao alto e o mostra, com orgulho.
Diz que quem não adorá-lo será queimado vivo.
A pessoa incomoda, é taxada de louco e é enviada, pelas autoridades para um manicômio.
Imagine muitas pessoas,
na rua,
pregando devoção à uma velha imagem de barro.
Eles andam entoando cânticos de adoração.
Fazem reverências à imagem, se curvam diante dela e tentam convencer todos a fazer o mesmo.
Juram que ela é o Salvador e o único a ser seguido.
Levantam a imagem ao alto e mostram, com orgulho.
Dizem que quem não adorá-lo arderá no fogo do inferno.
Aceitas como pessoas boas e sensatas voltam tranquilas para casa.
Será a loucura apenas a religião de uma pessoa só?
db (03/2018)
(obrigado Pirsig)

Um Jab

Um jab 
Dilacerou meu
Supercílio 
E ensinou
Que ninguém vive
A experiência alheia
Um joelho ralado
Com sangue escorrendo
Pela canela
Avisou a hora
De ficar calado
A contagem do juiz
Que eu ouvi baixinho e
de longe (até 10)
Fez entender
Que há tempo de
Brigar e há tempo
de se recolher
É hora do curativo
Mercúrio e esparadrapo
É hora de esperar sarar
Os hematomas
E quem sabe
Dar a mão
Depois
Para os que ainda
Não aprenderam
Apesar da luta
db (03/2018)

terça-feira, 13 de março de 2018

Até o fim


Até o último grito
O último suspiro
O último sussurro
O último berro
O último tiro
O último atrito
Até o derradeiro pedido
O finalmente perdido
O tristemente esquecido
O loucamente iludido
Até que o pé se machuque
Que o joelho fraqueje
Que as costas se arquem
Que a lembrança se apaque
Até que gelo derreta
Que fogo se acabe
Que a ilusão feneça
Que se perca a cabeça
Até que o fim aconteça
Até que não reste mais nada
Depois da curva da estrada
ou no fim da picada
Até que dia não haja
Que a noite se esconda
Que a tarde se leve
Que a manhã anoiteça
Ainda assim
Mesmo que no improviso
Por você e por mim
Continuar é preciso
db (20/02/18)
para Fernanda

Idolatrando a dúvida

Tento respeitar a todos. Os próximos, os distantes e incluo aqueles que tem idéias divergentes da minha.
Admiro mais alguns, é certo, mas torço para que todos eles domem seus demônios assim como luto para domar os meus.
(Todo mundo tem um demônio dentro de si)
Observo que alguns, mesmo inconscientemente, fazem mal a outros, as vezes na certeza de ajudar, as vezes por serem dominados pelo egoismo. Desejo que tentem se entender e se entendendo sejam melhores. Temo por aqueles que são atingidos pelo mal destes e não têm como se defender.
O mal inconsciente é pior que o mal proposital, contra este é mais fácil lutar pois é aparente. Já aquele deixa à deriva a compreensão. Ele acontece sem ser percebido por quem faz, mas atinge com a mesma intensidade a quem recebe.
Penso que a certeza de estar certo muitas vezes é a origem do mal, então idolatro a incerteza na esperança de que a dúvida me oriente.

db
A imagem pode conter: texto

Amigo paralelepípedo


Quando eu era criança
Eu tinha um paralelepípedo
De estimação
Era desses comuns
Que usavam para calçar
As ruas no interior
Por ser paralelepípedo
Tinha seis lados
Cor de pedra
E uma personalidade dura
Eu tinha muito asseio com ele
Lavava com água e
sabão todos os dias
Ele tinha nome, mas não
Passeava comigo
(talvez pelo peso)
Amigos humanos eram raros
Por isso era ele quem ouvia
Minhas histórias
E guardava meus segredos
Companheiro fiel, nunca contou
Nenhum deles a ninguém
Ele sabia de tudo e
Eu nunca soube nada dele
Introspectivo, calado
Fica ali, só ouvindo
Quantas vezes hoje
A gente deseja
Um amigo que só nos ouça
Não diga nada e guarde
Nossos segredos?
Um paralelepípedo
As vezes faz falta
Você acha estranho
Ter um amigo paralelepípedo?
Então talvez você tenha
Esquecido como é ser criança
Ou talvez tenha tido mais
Amigos humanos que eu.
db

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O mar não está para peixes

Não há escolha
É tocar o barco
Negociar com o vento
Estancar a sangria
Com o torniquete d'alma
Soltar as velas
E se entender com o leme
Fazer acordo com a maré
Sentir a brisa na rosto
Respirar mais uma vez
O mar é dono do destino 
E não está para peixes
A navegação da vida
Exige calma e paciência
E não há carta náutica
Que ensine o exato caminho
db

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Egrégora de dois na Paulista

Adoro quando japoneses
param na minha banca
de poesia na paulista.
Adoro pela sua falsa
simplicidade, pela sua
suposta timidez, pela
sua fala baixa.
Eles chegam em silêncio
com a cabeça baixa,
compenetrados.
E quando se interessam,
olham com aquele sorriso
discreto, que diminui ainda
mais os olhos pequenos.
Os mais velhos destilam
mansamente uma
sabedoria de vida e de
tradição que sempre
me encanta.
Os mais novos também
tem um DNA de sabedoria
que me intriga.
As mulheres orientais,
especialmente as japonesas
e descendentes têm alguma
força que não se encontra
em manuais ocidentais.
Talvez um passado atômico,
talvez uma experiência milenar
ou tudo junto tenha
feito dessas mulheres
pessoas especiais.
Domingo uma dessas
mulheres especiais
passou por lá.
Uma senhora, pequena
e magra, vestida com roupas
esportivas ocidentais que só os
orientais mais velhos usam
para passear.
Perguntou silenciosamente,
sem uma palavra, apenas
com um gesto, se poderia
ler as poesias que
distribuo de graça.
Eu, ocidental acidentado,
pouco afeito à delicadeza
de um gesto, quebrei o
encanto do silêncio e falei
que ela ficasse à vontade.
Eram dezenas de poesias
na caixinha de madeira.
Ela, em pé, ia lendo uma
a uma e após ler, empilhava
cuidadosamente o papel lido
no cantinho da caixa.
Eu observava apreensivo.
Sempre fico apreensivo
quando leem minhas poesias,
mas com ela minha costumeira
insegurança era maior,
silenciosamente eu ansiava pela
sua aprovação.
Aquela pequena senhora oriental
ali na rua naquele momento, era
muito maior que eu.
Vez por outra ela respirava fundo
ao terminar a leitura de uma poesia.
Teria gostado?
Teria se decepcionado?
E foi lendo sem pressa,
separava algumas em
um outro ponto da caixa.
De repente, ela levantou os olhos
para mim e disse:
- Todas suas?
Eu disse sim com a cabeça
(um gesto meu finalmente)
- Que inspiração!
Eu respirei aliviado, ela continuou
usas leituras e eu fiquei observando.
Notei que ela não lia algumas
até o final e ela teve ter
percebido que notei por
telepatia pois logo em seguida
me explicou baixinho:
- Só leio até o fim se o assunto
me interessa.
Voltou a ler.
Sem tirar os olhos do papel,
como que com vergonha,
ela começou a me contar
que também escrevia
Disse que tinha participado
de um concurso de poesias
cujo tema era escravidão
e que todos escreveram sobre
um lugar chamado Palmares e
um homem chamado Zumbi.
Coisas das quais ela nunca
havia ouvido.
A poesia dela, que foi premiada,
falava de um despertador que
quando tocava era como uma
chibata que estalava e ardia
nas suas costas e a fazia levantar
e trabalhar todos os dias da vida.
Contou que sua alforria só veio
quando começou a escrever poesia.
Ao final da leitura de todas
ela separou duas.
(Sei quais foram e também as escolheria)
Levantou seus olhos novamente para mim
e disparou:
- Quem é Manoel de Barros?
(Ri feliz internamente)
Contei para ela quem era.
Ela sorriu e perguntou:
- Eu encontro no google?
Eu disse que sim,
que felizmente sim e
que procurasse por
"poesia de Manoel de Barros"
Ela finalizou:
- Dizem que a gente aprende três coisas novas
todos os dias. Hoje você me ensinou a terceira.
Sorri e não disse nada, ela disse adeus
com um gesto de cabeça e foi embora.
Eu fiquei agradecendo
pela dádiva de poder fazer poesia.

db (05/02/2018)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O que é viver

Ter que se doar
em muitos
e não conseguir
Pagar promessas
que não se fez
para santos em que
não se acredita
Se achar um
poço que
transborda
insuficiências
Eis aí o que
é que é viver

db

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Rua que me vive

Esse céu que cobre
Essa nuvem que me faz sombra
Essa chuva que me banha
Esse asfalto que me sustenta
Essa fumaça que me respira
Essa multidão que me empurra
Essa briza que me alivia
Esse barulho que me ensurdece
Essa calçada que me passeia
Esse viaduto que me desaba
Essa esquina que me dobra
Essa é a rua que me vive
db

sábado, 20 de janeiro de 2018

A pesar de tudo (ou Lispectorando o Peito)

A gente vive a pesar de
A pesar de, a gente continua
A pesar de, a gente suporta
A pesar da falta de controle
A gente tenta se acalmar
A pesar da falta de resposta
A gente continua a perguntar
A pesar do não entender
É bom ter inteligência
Para ao menos ter
Consciência do que não
se entende
A pesar de, é preciso amar
A pesar de, é preciso conviver
A pesar da ignorância coletiva
É bom nos vacinar
Para ao menos
evitar o contágio
A pesar da escuridão
Existe a lua e o dia seguinte
A pesar da morte existe o antes dela
A pesar da parede há a janela
A pesar do risco
Há a esperança de sucesso
A pesar de, resistimos
A pesar de, respiramos
A pesar da fumaça
Há o espaço
A pesar da tristeza
Há a poesia e a canção
A pesar da sociedade
Há a solidão e a pesar dela
Há o abraço
e a amizade e o coração
A pesar de tudo
E seja como for
O pesar de tudo
É que nos desatina
E aguentar a dor
A pesar da falta de morfina
É o que nos faz viver
É o que a vida nos ensina
db

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Se quiser me entender

Se que quiser me entender
Não responda minhas
pergundas
Mas compartilhe das
minhas dúvidas
Não questione minha
descrença
Nem tente me fazer acreditar
Acredite na sua crença
E isto me bastará
Se quiser me entender
Não concorde comigo
Mas respeite minha opinião
Ela é sempre provisória
Tentarei respeitar a sua
Mesmo que seja definitiva
Se quiser me entender
Leia me nos olhos
E ouça meus silêncios
Respeite os meus medos
e não suspeite das
minhas lágrimas
Se quiser me entender

db

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Desimportante

Às vezes é preciso
Lembrar do Manoel de Barros
Para entender a
Importância das
Coisas desimportantes

Lembrar que
Pomba na areia do
Parque, tênis sujo e
Bola de plástico
É matéria para poesia

Briga de criança, baldinho
Velho, bexiga furada e merda
De passarinho
Também dá poesia boa

A sombra da árvore
Então, desimporta tanto
Quanto brisa fresca, canto
De Bem-te-vi e cheiro de mato
Aí é poesia certa

Agora... celular quebrado,
Falta de sinal, de pressa
E do que fazer (coisa rara)
É o material mais precioso
E aí: Já é poesia.

db

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Não sou nenhum Sun Tzu mas prefiro mil vezes um inimigo inteligente a um burro. Com o inteligente há sempre a possibilidade de acordo." db

Lugar nenhum

lá no lugar de ninguém
em lugar nenhum
ali onde o nada tem
onde se é qualquer um
onde se descansa calado
e não se ouve ninguém
onde a paz é presente
onde o silêncio persiste
lá onde não há caminho
onde a paciência persiste
ali onde se canta sozinho
e não querer nada é aceito
lá onde se pode respirar
e não tornar tão pesado o peito
onde a dúvida é mais leve
onde só poesia se escreve
onde se faz por opção
e não porque se deve
não sei onde é esse lugar
nem se o lugar existe
mas é lá que eu quero estar
não sei se é só imaginação
não sei se é só miragem
mas estou procurando a estação
e quero comprar a passagem

db

sábado, 25 de novembro de 2017

A rua

Na rua é preciso ter respeito
respeito com a rua, com os da rua
com as leis tácitas dela
E não são só os sem teto
sem lar, sem para onde ir à noite
que são dela
A gente vai sendo também
Aos poucos, aos trancos
Pelos flancos, pelos poros
A rua vai introjetando na gente
E vamos nos sentindo dela
com o viver das experiências
A gente vive, apanha, aprende
Quem só passa por ela
a caminho de casa, do trabalho
ou seja lá para onde estiver indo
não tem uma parca noção do
que acontece em cada esquina
em cada beco, em cada canto
Na rua a educação é outra
A lei é outra e o caminho
pode não ser o que a placa indica
ele também pode ser outro
E aí, quando você acha
que já é quase íntimo da rua
Percebe que
A rua não é de ninguém mas
tem seus donos

db

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Na rua

Se for pra rua
Lembre-se:
Lá o chão
É mais perto
E o tombo
é quase certo
E é com ele
Que se aprende
Lá tem sol que arde
Tem lua que clareia
Tem som que ensurdece
O assunto na rua
É mais reto
E a razão tem
Muitos lados
Na rua a arte
Pode ser maldita
A poesia sinistra
Mas é de verdade
Você descobre
Cedo ou tarde
Que lá
O buraco
É muito mais
Em baixo
Mas não tenho
Certeza
Só acho...

db

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Tempos sombrios

Atravessamos tempos sombrios.
Tentam nos tirar conquistas
Tentam nos intimidar com suas leis
e com seus tentáculos oficiais
Eles tentam nos acuar
e nós só temos ideias, ideais
e nossa arte como arma.
Somos muitos, mas muitos
de nós estão assustados,
cansados, acomodados.
E tudo o que eles querem
é que nos acomodemos
e que aceitemos tudo que
eles fazem como normal,
como parte de uma norma
que nós não conhecemos
e nem ajudamos a criar.
Tudo que eles querem é
que nos adaptemos às
suas regras, ao seu sistema
Que aceitemos passivamente
suas ordens e seus conceitos
Acomodados e sem ânimo
para a luta, nos somos
presas fáceis.
Eles estão vindo
Vão invadir nossas casas,
Vão nos tirar de nossas camas
Vão queimar nossos lençóis
E aí, nos vamos acordar assustados
e sem defesa
E eles vão cercear nossos sonhos e
vão jogar por terra nossos ideais.
E tudo que eles querem e precisam
É que continuemos descrentes,
acomodamos e acovardados.
Até quando vamos permitir?
Quando é que vamos deixar
de ser somente
revolucionários de boteco?
Somente
guerrilheiros de rede social?
E entender que a vida e a luta
não é só virtual?


db

Reflexões Cardiológicas

Já ouvi alguém dizer que o passado
pulsa dentro do peito como um segundo coração
No meu, esse segundo coração tem arritmia
Pulsa as vezes forte e doído, as vezes nem o sinto bater
O passado é tão mais importante quanto mais
morno é o presente e a perspectiva de futuro
Como todo mundo, divulgo sim meus grandes feitos
e escondo, mais ainda, os meus malfeitos,
minhas misérias interiores, meus medos e pecados
E talvez todas as consequências destes tenham
servido de experiência e estofo para realizar aqueles
Só na poesia sou capaz de rasgar o peito
e mostrar esses dois corações
E mesmo assim só os verão os bons entendedores
Faço do passado e do presente poesia hoje
e espero que ela me acompanhe no futuro
Quanto mais doida e doída for a batida
desses corações que trago aqui dentro
melhor para a poesia que está por vir...


db

(reflexões cardiológicas)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017


Limpeza Social

Essas pessoas indesejáveis que habitam os faróis
Esses filhos de não sei quem que vendem balas
Esse artistas de rua e seus malabares
Esses homens que fedem e moram nas calçadas
Essas mulheres que pedem esmolas com crianças no colo
E esses viciados chapados sentados no chão
E as roupas rotas que elas usam
Esse mal cheiro que exalam
E esse incômodo e esse nojo que eles nos causam
Essa sensação de que não temos nada com isso
Por que eles existem? Por que não se escondem?
Vamos criar leis que os elimine, que os afaste de nossa visão
Leis para não sentirmos mais medo
Leis para não sentirmos mais o seu cheiro
Não ter que partilhar a rua com eles
Não podemos conviver com isso
Nos somos superiores, não somos responsáveis
Eles são lixo
Nós somos puros, nós somos limpos
Eles nos dão sensação de insegurança
Eles podem danificar nossos carros
Nós somos donos de tudo
Eles não são nada
Mas até quando? Até quando?

db

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Poesia


Se mudar alguma coisa
na vida de alguém
Se melhorar o dia de 

qualquer pessoa
Se causar só uma reflexão
ou só um sorriso
ou um pequeno suspiro
Se trouxer uma lembrança
Ou fizer esquecer algo ruim
Se trouxer inspiração
Se fizer respirar melhor
Se fizer cair uma lágrima
Ou se só umedecer os olhos
Se der vontade de levar pra alguém
Se bater no peito e fizer eco
Se fizer olhar pra mim com
Sorrisinho de "gostei"
Se causar vontade de 
também fazer poesia
Ou de ler poesia
Ou de dar poesia
Ou de viver poesia
De qualquer forma
A poesia terá valido a pena
db

fb/douglasbunder
@bunderdouglas

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Lugares

Há lugares onde o sol nasce cedo 
para ter mais tempo de iluminar o dia
Onde há muitas árvores, 
mas os passarinhos fazem ninho 
em fios de eletricidade só para variar
Onde há muitas praças com muitas 
árvores e o chão fica forrado de flor de ipê
Tem praça com coreto, tem praça com 
concha acústica, tem praça com igreja matriz
E nas paredes, no teto e nos vitrais da igreja 
tem lindas obras de arte que 
ninguém nem repara mais
Há lugares onde as pessoas
fazem questão de dizer bom dia
E onde se pode pode fazer malabares 
nos faróis e vender artesanato no jardim
Onde o povo conhece e se 
orgulha de seus artistas
Onde os abraços são mais apertados, 
os sorrisos mais abertos e se conversa olhando no olho
Há lugares onde saudade se mata com conversa
Lugares onde, a noite, se senta na calçada 
pra contar mentiras que ninguém acredita e 
verdades que todo mundo já sabe
Onde a gente revê quem ficou e relembra quem já foi
Há lugares onde o tempo passa mais devagar
E a gente consegue ver o tempo passando
Porque tem tempo pra ver o tempo passar

db


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Verve

Quando a poesia ferve
Qualquer palavra serve
Qualquer momento flui
E todo verbo é verve
Quando a poesia flui
Qualquer palavra intui
Qualquer momento ferve
E todo verbo serve
Quando a poesia é verve
Qualquer palavra influe
Qualquer momento serve
E todo verbo ferve
Quando a poesia flui
Nada no mundo intervém
E toda e qualquer palavra convém

db (setembro/17)

Quando chove emoção

Na tarde sonolenta
Da Paulista
Uma menina para 
para es(colher) poesia
Diz que já conhece
Faz um elogio
E fica decidindo
Qual azulejo levar
A mãe um pouco
sem paciência
(talvez cansada):
- Gostou desse?- Onde você vai por?
- Leva esse mesmo...
A menina impassível
Continuou a escolher
Disse que acha que
começou a gostar 
de poesia por minha causa
E aí, eu virei as costas
e me afastei para chorar
de emoção um pouquinho
Eu já disse que
todo artista tem que 
"causar"
Mas nessa tarde 
de domingo na Paulista
quem causou em mim
foi uma menina 
chamada Paola.
Paola, sabe aquele
mar de água salgada
que tem no canto do olho?
Pois é...
Ele transbordou
porque você fez
chover emoção...

db 25/09/2016

sábado, 16 de setembro de 2017

NORMOSE

Hoje uma linda menina
oriental
parou em
frente à minha banca
de poesia
Olhar sereno para
meus azulejos
Fiquei observando
tentando adivinhar
se ela estava
gostando ou não
(como sempre, ou
quase sempre, faço)
Vi que tinha uma
argolinha no nariz
(chamam de piersing)
Eu disse que eles
(os azulejos) tinham
fragmentos de
poesias minhas
Ela só sorriu
e nada disse
Continuou
contemplando
os dito cujos
Algum tempo depois
ou porque
já tinha visto todos
ou porque já
havia se cansado
me disse:
Então vou te dar
uma poesia minha
E puxou de
dentro da bolsa
um saquinho
Fui pegar uma
uma poesia e...
- NÃO! Com a
mão esquerda!
Puxa. Eu, pobre
poeta da rua,
não sabia que
devia pegar
a poesia com
a mão esquerda
Atabalhoado que sou
fui logo metendo
a mão direita.
Ok, mão esquerda,
perguntei o porquê.
Ela me explicou
Eu entendi.
E com a mão
correta
( a esquerda )
puxei uma que dizia:
NORMOSE
É VIROSE
Inadvertidamente
e sem entender nada
disse:
- Que legal!
E em seguida
ela fez a pergunta
que me desmontou:
- Você sabe o que é
NORMOSE?
E eu...
- Claro que, que, que...
Não!
Ela me explicou o que é
depois me elogiou pela
sensibilidade
e foi embora.
Aí eu pensei:
Acho que nem eu
Nem ela
Sofremos disso
Dessa tal de NORMOSE
Nós, eu e ela,
sofremos de outra
coisa:
de Poesitose
ou quem sabe de
Poesitite...
db (16/09/2017)
Em tempo: de uma olhadinha em Asas em versos
é muito bom!
Normose: É a doença que torna medíocres os seres humanos, conduzindo à uma vida sem metas, sem fulgor, sem paz, sem significado, sem vigor, sem criatividade, sem felicidade. Um normótico é o tipo engendrado pela coletividade, por ela condicionado, e dela dependente. É o tipo tido por "normal" na sociedade em que vivemos. Normótico é o mesmificado, que, sempre buscando ajustar-se ao coletivo, perde sua identidade, e faz todas as concessões aderindo à dança dos modismos que se sucedem.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Oração da rua

Ocupo
a cidade
ocupo a rua
e as pessoas
Desejo
que desejem
Que se importem
Que mereçam
Torço
Pra que possam
Que consigam
Que se esforcem
Quero
Que entendam
Que aprendam
Se iluminem
Sonho
Que ocupem
Seu espaço
Seu direito
Rezo
Pra que o
esforço tenha
Sempre recompensa
Digo
que a luta
exige força
exige raça
Que nunca se
Enfraqueça
seu princípio
ideal e
opnião
E quando lhe
negarem
o seus pleitos
seus direitos
ou razão
Que Ainda
reste força
em seus peitos
Pra dizer
Rotundo
NÂO!


db 09/2017




Sabonete, cobertor e escova de dente.

O Zé tava quieto.
Tava na rua
trabalhando
Ninguém estava
Incomodando
Aí chegou um mano.
Chegou com aquele
papo de
- Desculpa incomodar...
E aí veio a estória:
- Meu nome é João
Sou morador de rua,
morava lá no centro
mas os caras levaram
todas as minhas coisas.
- Levaram cobertor,
levaram sabonete,
escova de dente,
só fiquei com meus
documentos...
- Eu tenho todos
os documentos
quer ver?
E mostrava:
RG, CPF,
Título de eleitor...
Dizia:
- Eu sou gente boa
Mas moro na rua.
Uso umas coisinhas;
Uso pedra pra fazer a cabeça.
Esse é meu problema,
por isso estou na rua...
- Tentei ligar para
minha mãe mas
não sei porque o
orelhão não
tá fazendo ligação à
cobrar.
Preciso que ela me traga
algumas coisas:
Cobertor, escova de dente,
sabonete...
Preciso que alguém
ligue pra ela
pra combinar um lugar.
O João tá fudido
Morando na rua
E lá no centro da cidade
Levaram dele
cobertor, escova de dente, sabonete.
O João quer que alguém ligue pra sua mãe
O João tem vergonha de voltar pra casa
O João só quer cobertor, sabonete e escova de dente
Era sete de setembro
dia da independência
e também era dia da dependência do João
Todo dia é dia da dependência de
um monte de João
Que independência temos pra comemorar
Se tudo que o João precisa é de
um sabonete, uma escova de dente e
um cobertor?
E tiram isso dele
E nem isso ele tem...
E ninguém ajuda o João...
Nem o Zé ajudou...
A rua é foda mano.
Esse país tá foda João.
db (7 de setembro de 2017)

sábado, 26 de agosto de 2017

No fim


No início do
crepúsculo
o caminho
já é escuro
Enxerga-se cada vez
menos?
Sabe-se cada vez
mais?
Nos distanciando
do início
Andaremos
pé ante pé
De um lado
a avalanche
do outro
o precipício
Eis o que é!
O que era
antes estrada
de tijolos
amarelos
agora serão
outros paralelos
Da vida inteira
restará somente
anamnese
A coruja
de minerva
agora voará
para entender
que da antítese
e da tese
nenhuma
síntese restará
A dialética
antes santa
agora
quebrada ao
meio
Ficará manca

db (08/2017)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O que contece comigo?

O que acontece comigo
Que sinto dor quando
você diz ai?
O que me acontece
Que não contenho as lágrimas
Quando escuto teu choro?
Que sentimento é esse
Que me faz sentir
a dor que você sente?
Que não me deixa dormir
enquanto você não dorme?
O que se passa comigo
Que não fico tranquilo enquanto
não sei se você está bem?
Que desassego é esse
que só passa quando
vejo seu sorriso?

db (08/2017)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

No canto do olho

No canto do olho
Tem um mar
De água salgada
Que transborda
Sempre que chove
Emoção

db (08/2017)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Anarco Poesia

Quando nasce a poesia
Digo a ela: Caminha!
Do mundo és agora
E nunca foste minha
Saia por aí afora
Exerça tua polissemia
E com esta tua alquimia
Mistura de versos feitos
Sem sentido padrão
Divulga ideia-anarquia
Sem amarras, sem conceitos
Sem governo e sem patrão
Seja antiga ou moderna
Seja fugaz, seja eterna
Não seja dúvida nem solução
pois poesia quando nasce
espalha ideais pelo chão
Digo de novo: caminha
És agora do mundo
E no fundo, no fundo
nunca foste minha.
(Douglas Bunder - 08/17)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Está tudo bem


Há fases em que escrever
é difícil
Impera preservar o direito à
introspecção
Há períodos em que é necessário
o silêncio
até que a turbulência
se amaine
Como sempre, nestes períodos,
vamos fingindo que está
tudo bem (o poeta é um fingidor)
Mas assim como
depois de um porre
o vômito faz melhorar
Nesta hora também
só um regurgito de idéias,
sentimentos e aceitação
das experiências vividas
vai colocar as coisas
no lugar
Não no lugar de antes
mas em algum lugar diferente
e que não incomode tanto
A dor continua
mas o tempo deve ser
analgésico
Assim espero, assim seja
Amém...
db (11/08/2017)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Diferença de opinião

Então tá.
Fica assim acertado
Eu aqui 
e você pra lá
Não tem problema
nossa diferença
O importante é
manter-me afastado
Meu pensamento divergente
afronta a sua crença
E você não aceita
quem pensa diferente
do que você pensa
Não tem discussão
A gente bate o pé
na opinião
e fica cada um com
suas verdades
Mas eu te digo
Nossas diferenças
Meu amigo
ainda vão deixar saudades

db (26/07/2017)

Sabe você? Sabe eu?

Sabe quando você contesta por respeito?
Sabe quando você briga porque ama?
Sabe quando você discorda só para ter assunto?
Sabe você? Sabe eu?


db

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Nós e nós na Paulista

Tem lua na madrugada da Paulista
Depois tem manhã malhada de luz...
E na manhã malhada chega gente
Tem jovens vindos da balada bêbados
Passam gays de todos os tons contando
Em alto tom as aventuras da noite
E tem os loucos conversando sozinhos
Falando com seus fantasmas talvez
Tem ciclistas e corredores felizes
Destilando suas "opioseratoninas"
Tem cães passeando com seus donos
Tem gatos no colo de moças solitárias
Velhinhos andando bem devagar
Homens gordos e suas esposas
Eles na frente elas atrás com as crianças
Mulheres magras tatuadas
Outros loucos falando dos
Dez mandamentos que Abrão guardou
Chegam os artistas plásticos
E mulheres lindamente plastificadas
E vem hippies com suas rugas no rosto
E crianças e moradores de rua
E outros loucos contando
Estórias que só a Paulista houve
Vem mágicos e músicos e palhaços
E um horda de gente invade a urbe
...

Uma velha senhorinha chega e lê:

"Nos nós
nós nos
atamos
sempre"

E diz que é estético, profético e poético
Que vai levar a poesia para sua nora
A nora é filósofa e vai entender
Pede um desconto pedindo desculpas
Desculpas aceitas, desconto concedido
Ela diz que adorava "aquele moço"...
Aquele que morreu: O Ferreira Gullar
Eu cito que também gostava muito
"Daquele moço" e cito uma frase dele:
"A arte existe porque a vida não é suficiente"
Ela me corrige:
- Ele disse que
"A arte existe porque a vida não basta"
Eu penso que a vida não basta mesmo
É preciso haver a senhorinha que
Compra minha poesia e que
Não deixa desatar meus nós à ela
É preciso que os loucos continuem
Passando na Paulista nos deixando
Em dúvida sobre nossa sanidade
E é preciso que haja lua na madrugada
E que nasça sempre manhãs malhadas de luz.

db (17/07/2017)




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como diria Baurelaire


É preciso embriagar-se
De vinho, poesia ou virtude
Optamos pelo vinho e pela poesia
Aquele que vem de longe
Traz a virtude da música
E cantamos, e bebemos
E percebemos que Deus
Tem coisa mais importante
A fazer do que existir
(já disse Santo Anselmo)
E nos resta a noite
E nos resta lembrar
Que aquele que é tímido
Quando se embriaga
Sai gritando pela rua o seu amor
(o que é dito bêbado foi pensado sóbrio)
E repito:
É preciso embriagar-se sempre
De vinho, de poesia ou de virtude
Mas só o álcool é
Santo, santo, santo
db (junho/2015)

quarta-feira, 14 de junho de 2017

É SÓ MINHA OPINIÃO

Eu tenho escutado, 
com certa perplexidade,
que adolescente drogado 
que anda pela cidade
pedindo ou roubando 
é o maior culpado
da decadência da sociedade.
Que ele não tem decência 
nem tão pouco inocência 
e deve ser eliminado 
porque é incorrigível
Vamos sumir com o safado 
de passado sofrível
e futuro horrendo
Já é bandido
e vai continuar sendo.
Vamos trata-lo a cacete
e empurrar pra debaixo do tapete
O que nos incomoda,
estraga nossa festa
e perturba o bem estar.
É o que nos resta,
E se não for possível
acabar com o ladrão
por que que não tatuar,
a força, na sua testa 
que ele é VACILÃO?
Não venha com o argumento
de que nunca aconteceu comigo
Já tive sim meu sofrimento
Tive amigo assassinado
Passei raiva e jurei vingança
Já fui roubado e assaltado
E até quase perdi a esperança
Sei de gente presa injustamente
E sei que tem muito bandido rico solto
E vivendo tranquilamente
Só que com esses você tem condescendência
E vacilando, pode até lhes dar clemência...
Mas veja, essa é só minha opinião.
A propósito: Quem é mesmo o vacilão?

db (junho/2017)